Panis et circenses à brasileira

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Panis et circenses à brasileira

O carnaval brasileiro sempre foi um tipo de respiro coletivo. É aquele intervalo em que, por alguns dias, suspendem-se as atividades normais do país para que a alegria tome conta de nossas almas mesmo que a vida real continue ali à espreita. O governo do Rei Momo se fundamenta nessa lógica e na ideia de que um reino de fantasias deve promover a alegria do povo e um sonho de liberdade.

No Brasil, há aquele sentimento de que o ano só começa, de verdade, na segunda-feira depois do carnaval. É como se a gente precisasse desse rito de passagem para apertar o botão do cotidiano, voltar às pautas, aos boletos, às promessas que ficaram até então penduradas. Por isso mesmo, o que acontece na avenida não é pequeno. A festa é grande demais e tem a visibilidade que muitos desejam para se tornarem vitrines e exporem interesses alheios ao espírito popular que a sustenta.

O carnaval sempre carregou crítica e ironia em sambas-enredos e nas alegorias. No entanto, a programação dessa festa para direcionamento político com homenagem a figuras do nosso cenário eleitoral nos agride como legítimos donos dessa cultura tão peculiar que é o carnaval e desafia a nossa tolerância enquanto súditos do Rei Momo.

O problema não é uma escola de samba homenagear um político. O problema é o carnaval, este período tão precioso de alegria e descontração, promover um desconforto na rua por se transformar em guerra de ideologia política.

Quando a celebração se converte em instrumento eleitoral, algo da espontaneidade se perde assim como a alegria, que deveria ser soberana e libertadora. E o reinado simbólico do Rei Momo, que deveria ser só dele, acaba ofuscado por agendas que não combinam com a natureza da folia.

Quando Castro Alves escreveu que “a praça é do povo como o céu é do condor” ele buscou expressar que o direito da população de ocupar o espaço público para se manifestar, protestar e exercer sua liberdade é intransigível. Ou seja, a praça pública é plural e o povo que a ocupa é livre, como o condor nos céus.

Essa trama ocorrida no carnaval faz lembrar a expressão latina panis et circenses, associada ao poeta romano Juvenal, que criticava a maneira como o império mantinha o povo apaziguado. Bastava oferecer pão e entretenimento e os questionamentos mais profundos ficavam para depois. A frase atravessou os séculos porque descreve um mecanismo humano e não apenas um período histórico.

No contexto musical também se visualiza a crítica do uso do espetáculo para anestesiar. Na canção “Panis et Circenses”, da banda Os Mutantes, os versos “mas as pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer” carregam uma ironia amarga, como se dissesse que o mundo pode estar em chamas, mas há gente que segue sentada, alheia e presa ao conforto da distração.

A sala de jantar de Panis et Circenses pode ser estendida ao cenário atual, em que o pão e o circo foram substituídos por bolhas ideológicas. O fanatismo político virou uma nova forma de alienação e o debate público, então, transforma-se em um espetáculo de entretenimento vazio e raivoso. O conflito muitos vezes alimentado por fake news passa a ser consumido como diversão e isso distrai e empobrece nossa cultura.

Ainda no campo de expressão artística, na música intitulada “Vai Passar”, Chico Buarque se refere ao carnaval como “uma ofegante epidemia”, tratando-o como um contágio coletivo que toma a cidade. Nessa imagem, a folia vira mais do que festa expressando o anseio de liberdade vivido no canto do povo, como resistência e pertencimento. A liberdade expressada na canção é espontânea e horizontal, nascendo do coro das ruas, contrariamente à lógica de campanha que tenta enquadrar a alegria. E é nesse coro do povo que a canção conclui-se com um antídoto contra qualquer palanque ao clamar “Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade até o dia clarear”.

Nota-se que Chico Buarque escreve que o canto do povo celebra a liberdade até o dia clarear. Isso sim, é a essência do carnaval e nos revela a urgência de se recuperar a autorização cultural de que podemos deixar de lado, por alguns dias, nossos problemas e dilemas e viver a fantasia do carnaval livres e felizes.

Para finalizar, uma dúvida levantada pelo escritor norte-americano Mark Twain, reconhecido por sua postura muitas vezes irônicas sobre a História, incomoda e faz muito sentido: “às vezes me pergunto se o mundo é governado por pessoas inteligentes que nos pregam peças ou por imbecis que estão falando sério”.

Com o cenário político que atualmente vivemos, que nos obriga a levantar da mesa da sala de jantar e desconfiar do espetáculo, essa dúvida do escritor norte-americano deixa de soar apenas espirituosa e passa a ser um critério de lucidez para atravessar a quarta-feira de cinzas, e principalmente a segunda-feira depois do carnaval, quando o Brasil recomeça a funcionar e a vida real cobra que estejamos despertos.

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